Transcrição

O tema de hoje é o vírus Covid-19, conceitos básicos. E falaremos sobre desinfectar o patrimônio cultural. Eu sou Mary Striegel, cientista da conservação com mais de 25 anos no Centro Nacional de Tecnologia e Treinamento para Preservação (NCPTT). Hoje falarei sobre como isolar, limpar ou desinfectar materiais históricos.

A apresentação que faremos hoje baseia-se no melhor conhecimento disponível até o momento, mas, como sabem, o Covid-19 e a situação do coronavírus, estão mudando e evoluindo rapidamente. Portanto, a informação que lhes proporciono agora pode mudar com o tempo. Se houver atualizações, publicarei no Facebook e voltarei a falar com vocês sobre o que devemos fazer em seguida.

Há cinco perguntas que tentarei responder hoje. A primeira pergunta é, o que é o vírus Covid-19? A segunda, quanto tempo permanece nas superfícies? A terceira, como inativar o vírus? A quarta, o que ocorre com os materiais históricos? E a quinta, quais precauções de segurança necessitamos tomar? Esta transmissão ao vivo será gravada, transcrita e estará disponível para todos no nosso site numa data posterior Então, o que é o vírus Covid-19? Bem, é um coronavírus. Isto significa que o coronavírus é nomeado pela sua aparência sob um microscópio. Estes vírus parecem estar cobertos com estruturas pontiagudas ao seu redor como uma coroa. Não há muitos dados sobre este coronavírus específico, mas há informação sobre vírus semelhantes, o que pode nos ajudar a compreendê-lo melhor.

TABELA 1: Permanência do Coronavírus sobre os materiais.

TABELA 1: Permanência do Coronavírus sobre os materiais.

 

Todos os vírus são fragmentos de códigos genéticos, ou DNA, agrupados dentro de lipídios e proteínas. E têm um invólucro exterior à base de gordura, conhecido como invólucro viral. É este invólucro de gordura que permite que o coronavírus seja suscetível à água e ao sabão. Quando lavamos as superfícies, quando lavamos as mãos com água e sabão, quando lavamos superfícies com água e sabão, este invólucro de gordura se dissolve e faz com que o vírus se desintegre.

Portanto temos a sorte de que o coronavírus tem um invólucro de gordura, invólucro viral. Porque outros vírus, como o norovírus, têm um tipo diferente de invólucro e são muito mais difíceis de desinfectar. O Covid-19 é transmitido de pessoa para pessoa por contato e pela tosse que produz aerossóis no ar que podem pousar sobre você ou superfícies, e os aerossóis transportam o vírus. É por isso que é recomendável que fiquemos pelo menos a 2 metros de distância um do outro, e evitemos tocar nas superfícies ou no nosso rosto. Porque uma vez que temos o vírus em nossas mãos e todos nós tocamos nosso rosto, eu toco meu rosto cerca de 20 vezes por hora, então o que estamos fazendo é transferí-lo para nossa boca, nossos olhos, nossa pele e isso nos tornará mais suscetíveis a sermos infectados. A pergunta número dois é quanto tempo persiste o vírus nas superfícies?

O vírus Covid-19 pode viver diferentes períodos de tempo em diferentes tipos de materiais. Há muita informação circulando no Facebook e em outras fontes de notícias. E a maioria delas são baseadas em um excelente artigo publicado em março de 2020 no Journal of Hospital Infection. E essa é uma das melhores fontes de informação que temos. Eu vou mostrar uma tabela com alguns períodos de tempo em que o vírus pode viver nas superfícies. O termo “viver” é pouco apropriado, é melhor dizer que persiste nas superfícies. O vírus precisa infectar uma célula para poder viver.

O vírus entra numa célula, infecta a célula, se reproduz na célula, mata a célula e sai da célula.

Portanto vou mostrar uma lista da duração do coronavírus em diferentes materiais. Nos metais, o tempo é cerca de cinco dias. Na madeira, o tempo é de quatro dias.

No papel pode ser de quatro a cinco dias. No vidro pode ser de quatro a cinco dias. Aqueles sacos de plástico com zíper em que você fecha as coisas são feitos de polipropileno, o vírus pode viver de seis a nove dias lá. Na cerâmica pode durar cinco dias; quer dizer, para simplificar esta apresentação, estamos classificando a cerâmica e o tijolo juntos porque o tijolo não foi testado, mas a cerâmica foi.

O último mencionado aqui é a pedra. Há uma fonte disponível online que diz que é de dois a 12 dias, mas não há investigação que a confirme. Por isso que tem um duplo asterisco. Em geral, a duração mais longa que estamos observando em superfícies é de seis a nove dias. Agora, outro artigo foi publicado no New England Journal of Medicine e este artigo dá tempos mais curtos para algumas superfícies. Diz, por exemplo, quatro horas no cobre. Dois dias no aço inoxidável. E até três dias em outras superfícies. A diferença entre o artigo do New England Journal of Medicine é que é uma comunicação, e não passou por um processo de revisão tão completo como o artigo do Journal of Hospital Infection.

Portanto, se há dúvida, recomendo que isole os materiais durante seis a nove dias. Então, como desinfetamos o vírus?
Bem, no mesmo artigo do Journal of Hospital Infection, observaram diferentes tipos de desinfetantes, a sua concentração, e o período de tempo que levou para destruir o vírus na superfície. Assim, vou mostrar apenas alguns deles que são importantes para nossa apresentação. Então, vamos ver este.

TABELA 2: Produtos de limpeza e desinfectantes

TABELA 2: Produtos de limpeza e desinfectantes

E vemos que podemos falar sobre etanol com uma concentração de 95% e com uma de 70%, podemos falar de 2-propanol, que é frequentemente o álcool comprado na loja de bricolagem ou na farmácia. E o que podemos ver com uma concentração de 95% e uma concentração de 70%.

Logo está a água sanitária/branqueador/lixívia (hipoclorito de sódio), a água sanitária/branqueador/lixívia, que se compra na loja, geralmente vem com uma concentração de aproximadamente 10%, quer dizer, o que estão fazendo uma solução diluída de água sanitária/branqueador/lixívia (hipoclorito de sódio). E há também o peróxido de hidrogênio (água oxigenada). É possível usar peróxido de hidrogênio que leva cerca de um minuto para matar ou desativar o vírus enquanto que, com o álcool isopropílico e semelhantes, é muito mais rápido. Assim, com esses materiais podemos observar que superfícies diferentes exigem diferentes períodos de tempo e diferentes desinfetantes.

TABELA 3 : Recomendações do CDC para uso doméstico.

TABELA 3 : Recomendações do CDC para uso doméstico.

O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) fez algumas recomendações para uso doméstico em geral. O que eles dizem é que, se uma superfície estiver suja, dever ser lavada e limpa com água e sabão neutro antes da desinfecção. Logo, deve-se usar soluções de branqueador doméstico, soluções de álcool a 70% ou desinfetantes domésticos registrados pela EPA (Agência de Proteção Ambiental). Portanto, isso é para uso doméstico geral. As recomendações do CDC são: etanol a 70%, 2-propanol (álcool isopropílico) a 70%, ou uma solução de branqueador diluída aproximadamente a 2%.

Até agora falamos sobre as recomendações que provêm da Organização Mundial de Saúde e do CDC, mas isso nem sempre pode ser aplicado aos materiais históricos. E por que não? Como conservadores/restauradores e cientistas da conservação, sabemos que não devemos danificar os materiais. Somos os tutores, guardiães e responsáveis pelo patrimônio cultural que herdamos e queremos que permaneça para as gerações futuras. Isto inclui coisas como a colcha da sua mãe, a colcha da sua avó, a Bíblia de família que está lendo, os móveis da casa histórica, o balcão de informações histórico do tribunal, ou ainda a cópia original do testamento que levamos ao tribunal/vara de sucessões.

Depende de nós fazermos a coisa certa. Portanto, em primeiro lugar, há uma escolha entre o isolamento e a desinfecção. Como seres humanos, temos a necessidade de consertar tudo, não sei quanto a vocês, mas eu sempre quero consertar as coisas. Somos rápidos em agir, mas às vezes, em emergências, é melhor ir mais devagar e avaliar a situação. Nos hospitais, isso é chamado de triagem.

Assim, o que é que realmente precisamos fazer primeiro? Se possível, isole o material das pessoas por um período de tempo. Isto significa fechar a galeria, ensacando objetos individualmente, e sair do edifício por nove dias. Aí você diz: “Mas por quê?” Bem, isto é porque materiais históricos podem se danificar de modo irreversível por alguns produtos de limpeza. Por isso, se precisar limpar, se precisar permanecer aberto, se tiver que usar objetos, então terá que escolher sabiamente. Assim, falemos de isolamento.
O isolamento é o método preferido para gerir objetos e coleções de museus. Causará o menor dano potencial aos objetos e proporcionará um ambiente seguro para o público uma vez que o período apropriado de tempo tenha passado. Recomendamos o isolamento de um edifício, um local ou uma coleção durante no mínimo nove dias com base na nossa revisão de literatura. Alguns diriam três, mas achamos que a cautela é o caminho que precisamos seguir.

O isolamento pode ser realizado ao nível do objeto. Pode-se usar sacos plásticos com zíper de vários tamanhos, como de 1 litro, 10 litros ou 20 litros. Pode colocar seus objetos pequenos em um saco plástico com zíper dentro de outro saco, etiquetar com informação sobre o objeto, a data em que o ensacou, e por que o ensacou. O que acontece quando alguém que pode estar doente tenha passado pela área de visitantes, pelo museu, pelos tribunais, pela câmara municipal e tocou nos objetos? Dado que o vírus pode viver em sacos plásticos até nove dias, os objetos devem ser isolados pelo menos por esse tempo.

Se o isolamento não for uma opção viável, então, o que acontece quando a limpeza e a desinfecção são necessárias? Novamente, deve atuar com precaução. Não realize ações de desinfecção em larga escala de coleções inteiras ou espaços museológicos inteiros sem conhecer os impactos potenciais aos objetos do museu. Por exemplo, foi sugerido que se poderia usar uma solução biocida de um composto de amônio quaternário por vaporização.

Esta não é a forma, repito, esta não é a forma de agir com coleções de museus. Muitos dos materiais vão interagir de maneira diferente com a solução biocida. E não sabemos quanto está sendo aplicado com a vaporização. Portanto, não faça isso. Em segundo lugar, não use branqueadores nestas superfícies. Muitos materiais culturais são sensíveis ao branqueador.

O branqueador é um hipoclorito de sódio, que se oxida em forma de um sal de sódio e os materiais como a pedra, materiais porosos, tijolos, cerâmica, todos serão danificados pelo branqueador e as superfícies onde foi aplicado. Os acabamentos delicados em madeira podem ser afetados a longo prazo por branqueadores e superfícies que foram limpas com este produto.

Assim, se vamos limpar e desinfetar, devemos começar com superfícies pintadas, maçanetas e corrimãos. Devemos observar se são de metal ou madeira, e se têm um acabamento especial. Em seguida, prepare uma solução de água e sabão com um sabão neutro. O sabão tem uma extremidade polar e uma extremidade não polar. E, portanto, pode solubilizar a gordura presente nas peças. O sabão neutro que recomendamos seria um sabão à base de gordura vegetal e/ou animal (Ivory ou Orvus nos EUA). Mas, eu não recomendo os detergentes para lavar louça porque estes têm outros aditivos que podem deixar uma película.

Não sei se alguma vez lavou seus óculos com detergente de lavar louça, eu fiz isso e é difícil conseguir retirar esta película. E não se quer deixar nenhuma película nos seus objetos. Depois de misturar a solução, coloque-a em um pulverizador/frasco de spray. Pegue uma toalha de papel, molhe a toalha de papel com a solução e depois limpe a superfície ou o corrimão.

Agora, lembre-se que, quando falamos destas coisas, falamos de desinfecção; vai demorar um pouco. Por isto, é aconselhável voltar a limpar, limpe novamente em um minuto. Depois de limpar a superfície, descarte esta toalha de papel.

É por isso que não devemos usar panos de algodão ou outros panos que não sejam descartáveis. Deve-se limitar a quantidade de água ou a limpeza úmida, já que isto pode danificar materiais históricos frágeis como papel de parede ou acabamentos de paredes pintadas. Uma vez mais, depois de limpar a superfície, descarte a toalha de papel. Trataremos as superfícies de tijolos como cerâmica que podem ser limpas com água e sabão e depois desinfectadas com solução de álcool isopropílico que contenha pelo menos 70% de álcool. O álcool isopropílico pode ser usado em algumas superfícies como bancadas de mármore, calcário, granito ou pisos e isto pode ser bem utilizado nos edifícios governamentais.

Não use, repito, não use álcool isopropílico na madeira já que pode danificar os acabamentos. Preste atenção aos acabamentos, e se houver dúvidas, entre em contato conosco em Portugal, Espanha, ou América Latina: www.apoyonline.org ou www.ge-iic.com ou encontre um conservador/restaurador ou cientista da conservação através da página web do Instituto Americano de Conservação (AIC): www.culturalheritage.org .

TABELA 4: Para uso de preservação.

TABELA 4: Para uso de preservação.

Agora quero falar um pouco sobre UV, que é a luz ultravioleta. Embora a informação que temos seja muito clara sobre se poder matar e inativar o vírus com radiação germicida UV numa frequência específica de 264 a 365 nanômetros de comprimento de onda, não encontramos um artigo de investigação confiável que recomende o UV para o Covid-19. Os raios UV pode danificar fotografias e papel sob exposição prolongada.

Manteremos vocês atualizados. O que deve saber se for usar UV: que tipo luz necessita? Quanta luz precisa? E que potência de luz precisa? E por quanto tempo? Não consegui encontrar essas fontes para lhe dar este tipo de informação. A última questão que quero tratar um pouco é que lhes quero mostrar minha lista de recomendações para materiais históricos. Deixe-me ver se encontro isso.

Portanto, para uso em preservação, recomendamos acima de tudo o isolamento. O isolamento durante nove dias. Se, definitivamente, não puder isolá-lo, use uma solução de sabão neutro, não um detergente, para limpar. E também pode-se usar álcool isopropílico, 2-propanol, esses são os nomes para o mesmo produto, em uma solução de 70%. Mas tenha cuidado com acabamentos delicados. Essas são as coisas que queremos que saibam e que esperamos que funcionem.

Quais precauções de segurança devemos ter ao limpar e desinfetar as superfícies? Em primeiro lugar, use luvas descartáveis ao limpar e desinfectar superfícies. As melhores luvas são as luvas de nitrilo. São azuis. As luvas devem ser descartadas após cada limpeza. Neste momento, elas podem ser difíceis de encontrar porque estão sendo usadas em hospitais e precisamos saber que, quando priorizamos a vida das pessoas, elas são mais importantes que o patrimônio cultural. Estamos no segundo nível de importância. Eu odeio dizê-lo, mas estamos.

Quando for a hora certa, compre suas luvas, use-as e descarte-as após cada limpeza. Outro equipamento de proteção individual a considerar seriam óculos ou óculos de segurança se tiver. Seus óculos comuns não são suficientes. É necessário que esses óculos se ajustem no seu rosto. Se você é responsável por limpar a área de visitantes de parques nacionais, uma coleção de museu, um edifício administrativo governamental, provavelmente precisará contratar serviços de terceiros. Deverá providenciar roupas de proteção externa, óculos ou máscaras de segurança, luvas cirúrgicas, e, se possível, uma máscara com filtro N95. Essa é a informação que eu tenho para vocês hoje. Como eu disse, isso será gravado.

Também teremos nossos slides disponíveis na página web: www.ncptt.nps.gov

Quero agradecer algumas pessoas que realmente me ajudaram a reunir essas informações. Em primeiro lugar, e sobretudo, a nossa investigadora associada, Vrinda Jariwala, que trabalhou muito nisto. As informações vieram do Serviço Nacional de Parques (NPS) por meio de Brynn Bender e Margaret Breuker. E queremos agradecer ao microbiologista emérito, Ralph Mitchell, que está na Universidade de Harvard.

Assim, espero que isso lhes tenha trazido alguns conceitos básicos que valem a pena olhar e refletir. Se tiver dúvidas, não hesite em colocá-las nos comentários. Esperamos que isso seja útil.

Nota da apresentadora

Devia ter mencionado que depois de limpar uma superfície com uma toalha de papel com água e sabão, devemos usar outra toalha de papel úmida e limpar novamente.

Quero chamar a atenção que não se deve lavar objetos individuais sem assistência e sem orientação. Isole os objetos e procure ajuda profissional.

Recomendo que não se faça a limpeza de artefatos de museu que estejam dentro de vitrines de exposição ou no depósito/reserva técnica. Os objetos nas vitrines já estão protegidos pelos vidros/acrílicos; evite fazer a limpeza do interior das vitrines por um mês inteiro mesmo que a limpeza já tenha sido programada. Os objetos no depósito/reserva técnica podem ser isolados individualmente por nove dias, com saco de plástico duplo com zíper, ou pode-se fechar todo o lugar por nove dias.

Se os objetos estão em áreas de depósito/reserva técnica sugiro, se for possível, limitar o acesso a uma só pessoa para evitar a contaminação cruzada. Esta pessoa deve fazer os protocolos de lavagem de mãos recomendados pelo CDC e usar luvas de nitrilo. Se por alguma razão for necessário limpar o depósito/reserva técnica, o piso ou o exterior de armários, use produtos de limpeza comuns que não sejam à base de solventes, mas sabão neutro à base de gordura animal e/ou vegetal (Oruvs ou Ivory nos EUA) líquido e com água numa quantidade limitada. A limpeza só deve ser feita em objetos de museu como maçanetas de portas e corrimões. Inclusive nestes, faça a limpeza com extrema precaução.

Nota de APOYOnline (http://apoyonline.org/) e GE-IIC (https://www.ge-iic.com/): as indicações de lavagem com água e sabão não devem aplicar-se quando se tratam de materiais e objetos com revestimentos sensíveis à água, pois estes podem danificar-se de forma irreversível.

National Center for Preservation Technology and Training
645 University Parkway
Natchitoches, LA 71457

Email: ncptt[at]nps.gov
Phone: (318) 356-7444
Fax: (318) 356-9119